domingo, 31 de agosto de 2008

Perguntas confusas, respostas obtusas

Uma pergunta que muitos entrevistadores ainda fazem aos candidatos nos processos de entrevista é a seguinte: Quais são seus pontos negativos? Particularmente, acredito que essa pergunta, feita dessa maneira, não agrega valor algum. Isso me lembra um fato que ocorreu há algum tempo, quando o João da Silva, aluno de uma das faculdades em que ministro aulas, perguntou: Professor, amanhã participarei de um processo de seleção. O que eu respondo se algum entrevistador me perguntar sobre meus pontos negativos? - Diga a verdade - respondi. - Mas se eu disser, não serei contratado. Afinal, o único motivo que me leva a participar da seleção, é que estou desempregado. - Acho esse tipo de pergunta inadequada. Se você quiser uma resposta padronizada, não será espontâneo. Seria mais inteligente se o entrevistador perguntasse para você sobre seus insucessos em empresas anteriores e, a partir daí, tentar entender as variáveis que levaram a esse insucesso, como procedeu para convencer clientes, enfim, tentar conhecê-lo por fatos e, então, diagnosticar atitudes e inter-relacionar com as outras etapas de seleção para averiguar a autenticidade de suas respostas. João franziu a testa e disse: - Ainda acho que ele vai me perguntar isso...Depois de alguns dias, ele veio me contar o seguinte: - Professor, devia ter mais de vinte candidatos para a vaga à qual eu estava concorrendo. Quando estávamos concluindo as respostas de alguns testes, um entrevistador interrompeu e disse: 'Pessoal, aqui tem uma folha em branco, de um lado quero que vocês escrevam sobre suas características positivas e do outro escrevam suas características negativas. Me entreguem essa folha junto com os testes.' Bom, todos escreviam muito sobre suas características positivas, mas quando viramos a folha para escrever as características negativas, todos ficavam pensando no que escrever. Cada um olhava para o lado e via a folha do colega também em branco. Afinal, qualquer coisa negativa nessa hora, pode comprometer a oportunidade. Num dado momento, um dos candidatos escreve uma palavra que rapidamente, é observada pelo colega do lado, e pelo outro sucessivamente... Num momento todos haviam escrito a mesma palavra como característica negativa: PERFECCIONISTA. Então perguntei: - E você João, também escreveu? - Claro, ali ninguém queria se comprometer.
Isso pode parecer irônico ou mais um daqueles contos sobre seleção de pessoal, mas há um dado importante nisso tudo. Ninguém em sã consciência realmente diria suas características negativas num processo de seleção, muito menos algo que comprometesse. Ninguém diria ao entrevistador: 'Olha, tenho muitas características negativas, uma delas é o meu comportamento explosivo. Se um cliente não quiser levar um produto, fico muito nervoso e sou capaz de pedir para ele sair da empresa.' Ninguém se diz hipocondríaco ou que tem tiques nervosos toda vez que um gerente lhe pressiona por resultados. De fato, ninguém diria muitas coisas, embora muitas coisas ocorram no meio organizacional. Há meios muito mais eficazes para se obter respostas inteligentes dos candidatos. Na verdade, a entrevista é um componente do processo de seleção que, quando profissionalmente elaborado, permite resultados importantes. Manter-se tranqüilo durante uma entrevista depende de cada um, mas todos precisam de sorte para encontrar entrevistadores com perguntas sensatas e criativas.
Publicado originalmente no site curriculum.com.br, 2004, e em Involuções corporativas, 2007.